Gastronomia

O Vinho de Cisti

09/08/04

No livro de Boccaccio, Decamerão há um conto muito interessante. Repasso a seguir, na íntegra, mesmo sendo um pouco extenso. Vale a pena ler.


“ Afirmo, portanto, que estava o senhor Geri Spina em situação de muito apreço junto ao papa Bonifácio; e que esse papa enviara à cidade de Florença muitos nobres embaixadores seus, incumbidos de tratar de certos assuntos de grande magnitude. Esses embaixadores apearam em casa do senhor Geri, e ali se hospedaram, tratando com ele dos negócios do pontífice. Fosse por que razão fosse, aconteceu que o senhor Geri, junto com os tais embaixadores do papa, costumava passar, todas as manhãs, diante da Igreja de Santa Maria de Ughi; ali é que o padeiro Cisti tinha seu forno; e ali ele, em pessoa exercia sua profissão.

Ainda que a sorte lhe tivesse dado um ofício muito humilde, ela se mostrava bondosa com ele, tornando-o muitíssimo rico; não desejando, jamais, trocar esse ofício por qualquer outro, Cisti vivia de maneira esplêndida; entre outras coisas, possuía sempre os melhores vinhos brancos e tintos que pudessem ser achados, ou na cidade de Florença ou em sua zona rural.

Todas as manhãs, via Cisti passar pela sua porta o senhor Geri, em companhia dos embaixadores do papa; certa vez, sendo muito forte o calor, supôs que seria gentileza oferta-lhes, a fim de que o sorvessem, o seu excelente vinho branco. Entretanto, confrontando a sua posição social e a do senhor Geri, pareceu-lhe que não era correto arriscar-se a convida-lo;assim sendo, procurou fazer alguma coisa que levasse o próprio senhor geri a convidar-se a si mesmo.

Vestiu um casaco alvíssimo; pôs à sua frente um avental rendado; tudo isso lhe conferia antes um ar de moleiro do que de padeiro. Todas as manhãs, mais ou menos na hora que sabia que o senhor Geri, junto com os embaixadores, tinha o hábito de passar, Cisti ordenava que fosse posto, diante da porta de sua casa, um balde novo, estanhado, cheio de água fresca, e junto um potinho bolonhês novo, contendo seu excelente vinho branco; além disso, ordenava que se pusessem ali dis copos que pareciam de prata, tão claros e brilhantes eram; em seguida, ao passarem o senhor Geri e seus colegas, ele pigarreava uma ou duas vezes, e punha-se a sorver com tanto gosto seu próprio vinho, que vendo-o, mesmo os mortos sentiriam vontade de fazer a mesma coisa.

Observou isso o senhor Geri, em uma ou duas manhãs; na terceira disse:
- Que vinho é este, Cisti, é bom?
Levantando-se num pulo, Cisti respondeu:
- Sim,senhor, porém não poderei faze-lo compreender o quanto é bom, a menos que resolva experimentá-lo.

Estava com sede o senhor Geri, ou por causa do tempo ou por causa do cansaço, ou, mesmo, por ter visto o gosto com que Cisti bebia; volto-se, portanto, para os embaixadores e, com um sorriso, disse:
- Senhores, será bom experimentarmos o vinho desse excelente homem; pode ser que seja tão bom que não precisemos nos arrepender!

E, em companhia dos embaixadores, acercou-se de Cisti. Ordenou o padeiro que fosse trazido para a porta, de dentro do seu estabelecimento, um belo banco; solicitou que se acomodassem todos ali; e aos seus criados, que já se apresentavam para lavar os copos, disse:
- Amigos, afastem-se daqui; deixem que eu próprio execute essa tarefa, pois eu sei, tanto quanto enfornar, servir o vinho; e não pensem que vão experimentar sequer uma gota.

Depois de dizer isso, ele lavou quatro copos, belos e novos; ordenou que lhe fosse apresentado um pequeno pote de seu excelente vinho; com extrema diligência deu de beber ao senhor Geri e seus colegas. A esses senhores o vinho pareceu ser o melhor que sorviam, há muito tempo; assim sendo, o senhor Geri teceu-lhe muitos elogios; e continuou a passar, durante o tempo em que os embaixadores ficaram na cidade, quase todas as manhãs, pela porta de Cisti, onde todos se punham a beber outra vez.

Certo dia, terminando sua missão, precisavam os embaixadores ir embora; o senhor Geri, então, ofereceu-lhes esplêndido banquete, convidando para ele parte dos mais notáveis cidadãos do lugar; e também convidou a Cisti. Não quis o padeiro ir à festa, pó nada deste mundo. Por isso ordenou o senhor Geri, a um de seus criados, que fosse buscar uma garrafa do vinho de Cisti, e que servisse do tal vinho, meio copo a cada homem, nos primeiros pratos. O criado, talvez aborrecido porque não podia provar daquele vinho, apanhou um enorme botijão. Vendo o tamanho do recipiente, Cisti disse:

‘ Filho, não ordenou o senhor geri que você viesse a mim.’
Declarou o criado, inúmeras vezes que assim era; que o mandara à casa dele o senhor Geri, porém como não obteve outra resposta, da parte de Cisti, retornou para junto do senhor Geri, dizendo-lhe o que se passara. Ao que disse o senhor Geri: ‘ Vá outra vez à casa de Cisti e diga-lhe que eu o mandei, e, se ele continuar respondendo do mesmo modo, indague a ele para quem é, pois que estou te enviando.’

Foi o criado outra vez à casa de Cisti, e disse-lhe:
‘ Cisti, não há dúvida de que o senhor Geri manda-me procurá-lo.’ Ao que retrucou Cisti: ‘ Filho, não há dúvida de que não é assim.’
‘ Mas nesse caso, a quem é que ele me manda?’
‘ Ao Arno! ‘.
Tendo o criado informado essa resposta ao senhor Geri, derepente abriram-se a este os olhos da inteligência; e então ele disse ao criado: 
‘ Deixe-me ver a garrafa que você levou’.
E, ao ver o botijão, continuou:
‘ Cisti disse a verdade! ‘.
Tendo dirigido algumas censuras ao criado, ordenou que ele apanhasse um recipiente mais adequado.
Ao ver a nova garrafa, exclamou Cisti:
‘ Agora sim noto que o manda procurar-me! ‘.

Depois, muito contente, encheu-lhe o vasilhame. Em seguida, naquele mesmo dia ordenou que fosse enchido um tonel com o mesmo vinho e mandou leva-lo à casa do senhor Geri, em seguida, encaminho-se para lá, ele mesmo, em pessoa, e, achando o senhor Geri, disse-lhe:

‘ Senhor, quero que acredite que o enorme botijão dessa manhã tenha me causado susto; contudo quis me parecer que tivesse saído da sua lembrança aquilo que eu, em todos esses dias, com meus pequenos potes de barro, quis provar, isto é, que este vinho é de família, que se pode beber à larga, e isto é que pretendi lembrar-lhe de manhã. Agora, tendo decidido não mais ser o guardião desse vinho, ordenei que o trouxessem todo à sua casa, para o futuro, aja o senhor como lhe convier ’.

O senhor Geri gostou muito do presente de Cisti; e agradeceu-lhe da maneira que lhe pareceu mais oportuna. Daí em diante, sempre o considerou homem de bem, e também um amigo‘’.

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