Gastronomia

Triste fim

28/06/04

Sua filha mais nova trouxera um bilhete da escolinha. Nele estava escrito que amanhã seria seu dia de providenciar o lanche para a turma. E tinha que ser sagu.
Estava preste a gritar ‘ Isaura, faz a merenda da Nina ‘, quando lembrou que sua empregada se demitira alegando que a escravidão já havia acabado. Ela própria acabara de se demitir. Planejava mais um filho e queria todo seu tempo para dedicar a ele.

Nos muitos anos trabalhando fora esqueceu até como ferver água. Mal sabia o que tinha no armário da cozinha. Procura pra cá, remexe pra lá, milagrosamente encontrou um pacote escrito ‘ sagu ‘. Leu o modo de preparo. Seguiu as instruções.

Quando não encontrou nem uma gota de vinho na cozinha pensou novamente em gritar para a Isaura (os hábitos morrem devagar). Fazia muito frio lá fora, o carro estava no check-up e o supermercado ficava looonge...

Veio à sua memória uma cena: o marido chegando em casa com uma garrafa debaixo do braço e a levando até o armário do quarto, onde a colocou atrás de uma pilha de roupas.

Correu para lá, mais uma vez procurou, remexeu e encontrou. O rótulo estava ilegível, provavelmente o vinho já estava estragado. Abriu torcendo para que o líquido não tivesse virado vinagre. Conferiu. O cheiro não se parecia com o do tempero. Despejou o conteúdo todo na panela, depois se livrou da garrafa e da rolha. Seu marido nunca ficaria sabendo.

Nestor estava saindo feliz do escritório. Já planejara tudo e antevia os acontecimentos. Pegaria ali na esquina um enorme arranjo de flores e o jantar encomendado chegaria exatamente às vinte horas. As crianças seriam levadas pela avó as dezenove e trinta. A nova aliança que daria à sua esposa já estava em seu bolso. O presente estava à altura da nova fase em seu casamento. Aquele filho seria bem vindo.

Durante o jantar, antes de entregar o presente, ele abriria o vinho de guarda francês cujos adjetivos terminavam todos em ‘íssimo’. Seu pai comprou aquela garrafa quando seu filho nasceu, mas morreu antes do vinho atingir seu auge.
Agora ele, seu filho, beberia aquele vinho para celebrar a vida que estava por vir.
Sua esposa, muito sensível, ficaria emocionada ao saber a história daquela garrafa.

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